sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Nem tudo é um mar de rosas ... Mais quand même !



Depois de três semanas ininterruptas de sol e calor, a chuva decidiu cair com classe. Com tanta classe que tiveram que anular o curso de danças latinas da Mimulus agora de tarde. Mas o mais engraçado é que a chuva insistiu em marcar presença até pouco antes do curso que dura duas horas (todas as sextas e sábados) começar. Foi a conta de chegarmos na Place des Terreaux (pois mesmo com a chuva fomos orientados à ir para o local do curso) e o sol encarou o céu cinzento e fez o tempo abrir. Tarde demais ... o técnico do som já havia ido embora e a coordenadora do evento já havia dado a última palavra : ANULADO! 


Uma pena, pois esses são os últimos cursos agendados que a Cia de Belo Horizonte ministra na cidade. como se não bastasse a chuva de hoje, ontem era dia de greve na França (novidade... eles sempre fazem greve). Todos reivindicavam contra a reforma da aposentadoria - o que isso tem a ver com a bienal ? - O curso agendado para as quintas-feiras na região de Lyon foi cancelado também =/  A parte boa da história é que não precisei faltar em mais uma aula na faculdade ... rs 

abre parênteses : 
Minhas aulas na faculdade finalmente começaram nessa semana, e vi que preciso re-adaptar o meu cérebro e meus ouvidos para 1h45, ou mais,  para as aulas em francês. Eu que já tinha dificuldade de acompanhar/escrever as aulas em português, em francês é ainda mais difícil, mas daqui uns dias eu me acostumo novamente. 

O maior problema (para essa re-adaptação) dessas duas primeiras semanas de aula é que ainda estou estagiando na bienal, então meus horários ficam restritos e acabo perdendo algumas aulas =/ Sorte que tenho uma grande amiga que me atualiza em tudo, além de me ajudar durante as aulas... e claro ela é uma latina - equatoriana e que ainda por cima fala um cado de português :)

A verdade é que também estou descobrindo como é esse terceiro ano da graduação aqui ... e até agora estou gostando da maioria das disciplinas ! Muitas peças teatrais para assistir e descobertas sobre as profissões do "território" artístico nas artes do espetáculo. Estou satisfeita com a grade curricular e em breve terei mais novidades pra contar!
fecha parênteses.


Voltando à Biennale de la Danse ...

Todos esses cancelamentos me fizeram lembrar que imprevistos acontecem em todos os lugares, como por exemplo ontem, quando eu estava dentro do metrô indo para um espetáculo da bienal e em uma das estações ele parou e por lá ficou por quase dez minutos. Um "imprevisto" tinha acontecido com uma outra linha de metrô e ficamos bloqueados, quase que eu não chego no espetáculo à tempo ... ainda mais com a greve e tudo ... ufa ! No final acabou dando tudo certo, cheguei à tempo, entrei, me assentei e assisti o espetáculo solo de uma uma hora da Cie Ali Fekih "Les flamants roses". 

Na quarta-feira foi o dia de "Partida",  espetáculo  com os bailarinos do projeto social da Débora Colker - adolescentes entre 15 e 20 anos apresentaram três trabalhos diferentes e fizeram a platéia francesa fica de pé (sim, pois aqui eles batem palma e quando gostam muito batem palma. Só se levantam quando amam.). Na terça-feira foi dia de acompanhar a Mimulus pra lá e pra cá nas aulas de danças latinas, quando chegou o final do dia estava tão cansada que resolvi ficar em casa ao invés de dormir em algum espetáculo... rs

Na segunda-feira assisti uma cia americana liderada por Bill T Jones, numa super produção encomendada para celebrar o aniversário de 200 anos do nascimento de Abraham Lincoln, décimo sexto presidente dos Estados Unidos. A minha agenda para o fim de semana também já está completa, hoje assisto a Cie "S'poart", amanhã o "Ballet de l'Opéra de Lyon" dançando dois trabalhos (1993 e 1998) de William Forsythe e para finalizar a semana vejo no domingo a Cie Käfig com o espetáculo BOXE BOXE.

Na semana passada o rítmo de espetáculos também foi intenso, de segunda a domingo com uma folga na quinta-feira. No dia 13 de setembro fui assistir três trabalhos apresentados pela "Focus Cia de Dança" do Rio de Janeiro e na terça-feira realizei um dos meus sonhos...  

Lá estava eu às 19h30 no hall de entrada da Opéra de Lyon, e enquanto eu segurava a minha ansiedade e esperava a companhia de uma outra estagiária da bienal e bailarina mineira, eu registrava o momento com algumas fotos sem muito sucesso, pois o ambiente estava muito escuro e a minha máquina fotográfica não é uma brastemp. Mas as fotos não eram o mais importante, meus olhos e minhas emoções registraram isso numa "máquina" muito mais eficaz - minha alma, meu coração, cada mínima parte do meu corpo. O espetáculo que estava marcado para às 20h começou atrasado, mas nada disso tirava o encanto da menina aprendiz de bailarina apreciar duas horas do espetáculo "Nelken"  (1982) da Cia Pina Bausch. A pequena aprendiz não fechou mais os olhos de jabuticaba e ali ficou emocionada de ver a imagem, que um dia viu num livro, virar realidade ali bem diante dos seus olhos! Naquela terça-feira dia 14 de setembro de 2010, ela realizava um sonho que jamais pensara realizar um dia, e mais uma vez agradeceu por ser artista.



Na quarta-feira foi a vez da "Trisha Brown Dance Company", na sexta-feira a Cia "Ailey II " apresentou com seus 12 bailarinos trechos de trabalhos do início da carreira de Alvin Ailey e outros 2 trabalhos mais recentes coreografados por outros artistas. No sábado assisti um solo de Germaine Acogny e no domingo fechei com chave de ouro assistindo a criação 2010 da "Cie Maguy Marin".


Dessa lista de espetáculos faço as minhas considerações para todos. Sei na verdade que só posso agradecer a oportunidade de viver a dança nessa intensidade, e que altos e baixos são os imprevistos no meio do caminho... 


sexta-feira, 17 de setembro de 2010

La vie en rose !



As surpresas que tenho tido, parecem não acabar mais ... Hoje pensei comigo mesma "essa bienal me deixará saudades".

Desde o seu início, a décima quarta Biennale de la Danse, tem me impressionado. Não somente pelos espetáculos que tenho visto, mas por toda a sua logística e organização. A experiência de estar nos bastidores de um evento como esse é extraordinária. Da minha própria "invisibilidade", vejo as coisas acontecerem e reafirmo pra mim mesma que é essa  "invisibilidade" que se faz essencial em qualquer circunstância. Se não fossem os seres "invisíveis" esse evento não aconteceria, e olha que não são poucos! Cada um desempenhando uma função diferente para um mesmo fim : fazer a  Biennale Internationalle de la Danse de Lyon acontecer!


Mas vamos falar agora daquilo que meus olhos viram desde então!



Para começar o domingo, dia 12 de setembro, Lyon se coloria em tons de cor-de-rosa. Durante mais de quatro horas e meia, o centro da cidade estava lotado de pessoas de todos os tamanhos, cores e nacionalidades. Acontecia o oitavo "Défilé: La vie en rose!". Um verdadeiro desfile que ligou duas das principais praças  da cidade (Place des Terreaux e Bellecour) e atravessou uma das ruas mais simpáticas de Lyon (rue de la République).


Como blocos de carnaval, entre amadores e profissionais,  todos evocavam o texto cantado e estreado por Edith Piaff em 1947. Durante uma tarde inteira debaixo do sol, espectadores e participantes vibravam e celebravam "A vida em Rosa" - amarelo, verde, azul, roxo,vermelho, branco ... Figurinos e carros alegóricos exóticos desfilavam ora com alegria ora com cansaço, que se evidenciava com o passar das horas. O domingo foi marcado por uma celebração à dança, onde 300 000 pessoas viram "la vie en rose".








A chegada na Place Bellecour foi para os que resistiram ao calor que fazia. Dentre a multidão que assistiu ao desfile, 8 000 pessoas ficaram para ver a famosa "batucada" com direito a samba enredo e também para dançar a "Tarantelle", uma coreografia disponibilizada no site da Biennale para encerrar o dia ... Como eles mesmo citaram "um momento raro de troca e festa!" 








domingo, 12 de setembro de 2010

Depois da chuva ...

 ... o sol voltou para nos alegrar !


Depois dos episódios da minha terça-feira fatídica e cheia de "pendengas", fecho a minha semana com gratidão !

A chuva imprevisível que aconteceu na última terça-feira aqui em Lyon e que marcou um dia atípico, em que precisei resolver alguns detalhes para o início do meu estágio na Biennale de la Danse ... Deu lugar à uma semana cheia de boas surpresas. Para começar com o maravilhoso jantar que eu e o Caique fizemos no restaurante experimental de l'Institut Paul Bocuse. Os estudantes do terceiro ano de "arts culinaires" (como eles mesmos nomeiam) abrem algumas temporadas no final do penúltimo semestre do curso, para o público experimentar o que eles aprenderam durante a formação. Por 20 euros, os apreciadores da boa comida, têm um menu completo (entrada + prato principal + sobremesa) com direito à pães, vinho e água mineral ou gaseificada.... tudo com excelência e qualidade ! 

Estávamos indo pela segunda vez (a primeira fomos acompanhados da minha mãe, o Du e dos amigos franceses Pierric e Inès - que ficaram fãs da experiência gastronômica), e adoramos o menu "especial legumes", estava tudo maravilhoso, e por incrível que pareça saímos de lá satisfeitos comendo só legumes ...hehehe! Como de costume o Caíque sempre conta essas nossas experiências no blog dele, com direito à fotos e explicação dos pratos, então para os curiosos... é só acessar aqui !

Depois do jantar maravilhoso de quarta-feira, o dia 9 que começou nublado resolveu sorrir para a chegada da Cia Mimulus no Aeroporto Internacional de Lyon Saint-Exupéry. Apesar do extravio de duas malas, Jomar Mesquita, sua esposa Paula e a parceira de trabalho Juliana Macedo, chegaram bem. Fomos direto para o escritório da Biennale para uma reunião e depois só nos encontramos à noite para a noite de abertura oficial da Biennale de la Danse!

Foi emocionante ouvir o dicurso de abertura feito pelo diretor artístico da bienal, Guy Darmet , que depois de 14 anos encerra o seu ciclo com o tema ENCORE! E explica o termo como Bis! Amante da dança ele fez uma seleção extraordinária para as companhias que participam desse ano, e com um tom meio nostálgico relembra alguns fatos marcantes da história desse evento internacional que começou em 1994. Para a abertura, nada mais nada menos que a remontagem do balé "Le sacre du Printemps" do Nijinski (1913), dançado com primor pela Cia Les Ballets de Monte-Carlo. Depois de um curto intervalo voltamos à grande sala de espetáculos da Maison de la Danse (espaço maravilhoso, consagrado para receber dança), para encerrar a noite, vimos da mesma Cia, o trabalho Altro Canto Part I  (2006). Tenho as minhas obeservações particulares, mas os bailarinos e bailarinas são impecáveis! 

Fiquei maravilhada de estar ali, naquele momento, naquele lugar. Vivi algo que jamais poderia pensar vivenciar .... e adorei ! Agradeci mais uma vez de ser artista... e agradeço todos os dias !